Uma vez sentado a frente da televisão, acredito que com 16 anos de idade, assistia um jornal, quando me deparei com crianças passando fome no sertão de certo país de outro, digo, de terceiro, mundo. Aquilo me dilacerou por dentro de tal forma que chorei compulsivamente durante toda noite. Talvez hormônios da adolescência, ou falta de estrutura emocional, ou pior, excesso de coragem para querer mudar uma sociedade cada vez mais imutável. Doce e perigosa ilusão.
Nunca saberei se naquele momento, ou como processo natural durante toda a infância, nascia um sentimento de indignação, muito mais parecido com raiva, do que com coragem propriamente dita, capaz de gerar mudanças. Alguns psicólogos e estudiosos associam a raiva como um sentimento de desconhecimento com o ser ou a coisa odiada. O indivíduo simplesmente não compreende como tal “coisa” é ou funciona, e, apenas odeia, quer ignorar, não aceitar, ou destruir. Estranho sentir algo capaz até de destruir, quando a origem do sentimento foi de indignação, de querer ser e fazer pessoas e sociedade mais justas, corretas com os seus e os dos outros.
Imaginemos alguém parado em seu carro, no trânsito, aguardando o sinal ficar verde. O semáforo finalmente muda de cor e o carro a frente parece não se importar. O indivíduo então franze a testa e olha a frente tentando obter uma explicação lógica nos primeiros milésimos de segundo, quanta paciência! Então, o segundo passo, a buzina. Eis que o cidadão resolve cooperar e o mundo volta a sorrir para os carros atrás. Em alguns segundos o nível de estresse do indivíduo volta ao normal, os batimentos cardíacos em alguns minutos estabilizará.
Colocando um pouco mais de emoção, imagine que o carro a frente não se comova com a buzina. Virá outra com mais raiva. Será acompanhada a seguir de uma sinfonia dos demais carros. O indivíduo de trás se indignará ainda mais e tentará a sua maneira, compreender o ocorrido. – É inadmissível que o “mala” a frente não perceba o quanto inconveniente esta sendo!
O que terá ocorrido? Será ser uma idosa tentando compreender o câmbio do seu automóvel ou enxergar a cor do sinal? Pode ser problema mecânico? Ou o favorito dos raivosos, o que justifica os minutos de estresse e a meia hora de batimentos cardíacos adulterados, a “displicência”. Como saber se o sentimento do condutor é mera e incompreensível “raiva”? Simples! Ele sentirá prazer, ainda que não admita nem a si mesmo, de provar sua teoria, de que o motorista à frente esta pouco se importando com os demais, é um ser displicente, insensível, mesquinho, e, que ele, o autor da primeira buzina, é apenas um paladino do bom senso e defensor dos injustiçados.
Talvez o primeiro sinal de deturpação do sentimento é a procura por uma justificativa que o mascare com ar de nobreza. Quando na verdade, a busca deveria ser pelo autocontrole, pelo equilíbrio. Ninguém é capaz de corromper o próximo. Pensar no contrário é o mesmo que acreditar que é possível motivar aos outros por fatores externos. Não fazemos alguém ficar feliz em ganhar chocolate de presente, se aquele indivíduo não gostar de chocolate. Então por quer aceitar um sentimento que nos traz desequilíbrio? Porque é mais fácil agir, do que pensar. Temos mais músculos do que massa cerebral e em situações de estresse, o corpo procura auto-proteção buscando guardar a energia para funções vitais necessárias a sobrevivência, e, pensar não é necessário para poder existir. Perdão Descartes, mas se o “penso, logo existo” fosse verdade, então não desmaiaríamos quando o fundamental ao corpo é manter o coração batendo.
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